Muitos cientistas pensam que a Ciência e a Ética formam um pacto fadado ao fracasso, você também pensa assim?
Posted on novembro 3rd, 2009 por Gladis Maia
Gladis Maia
A cada dia a Ciência nos surpreende. Alternativas inéditas, muitas delas sequer sonhadas um dia, são hoje parte do nosso cotidiano. Possibilidades como a preservação duradoura da vida em condições artificiais, a intervenção em fetos e a clonagem evidenciam a expansão do nosso poderio científico-tecnológico. Poderio que nos inscreve, de imediato, no horizonte ético: tudo que pode ser feito, deve ser feito em nome da Ciência ou do Conhecimento?
Façamos um parêntese para tentarmos definir o que é mesmo a Ética. Segundo Houaiss, é a parte da Filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, dos valores presentes em qualquer realidade social. A ética reúne pois os cânones que devem orientar a ação humana para o máximo de harmonia, de universalidade, de excelência ou perfectibilidade. Implica então na superação de paixões e desejos irrefletidos.
Mas, separando a ciência do seu uso, de suas aplicações, somos cada vez mais ciosos dos limites a serem estabelecidos à intervenção humana na natureza.
Não é à toa que diante desse dilema vem surgindo, tão logo surge uma descoberta, discussões em torno da Ética. O termo vem sendo larga e vastamente empregado na imprensa, freqüenta discursos oficiais de matizes distintos, é corrente no meio empresarial e, o que não deixa de ser surpreendente, começa a invadir a linguagem do dia-a-dia. Caracterizar alguém ou algum comportamento como não-ético é uma forma imediata e irrecorrível de condenação.
Mas esse acordo rápido e fácil a respeito de um tema sabidamente controverso não deve nos enganar… A ciência, traço marcante que das sociedades modernas, vem sendo analisada sob os mais diversos ângulos, desde o enfoque mais clássico da epistemologia ao olhar mais recente dos estudos culturais, multiplicam-se os estudos sobre a atividade científica, e entretanto a perspectiva da ética vem exercendo particular interesse, associada que está ao espetacular desenvolvimento contemporâneo das ciências da vida.
Que a reflexão ética encontre algum abrigo nas instituições ligadas à ciência é louvável. Os comitês de ética, regulamentadores das pesquisas que envolvam humanos, o crescente cuidado no trato dos animais associados à pesquisa científica, a atenção e a sensibilidade com que são vistas as questões relativas à intervenção no meio ambiente são indicadores de que estamos, felizmente, diante de um novo cenário.
Mas se de um lado devemos celebrar o reaparecimento da temática ética, na medida em que se localiza no campo da ação humana, o que parecia um destino inescapável, por outro lado, cabe perguntar sob que condições é razoável esperar uma aproximação permanente entre a Ciência e a Ética.
Ética, entre outras coisas, significa restrição. O recurso a valores, constitutivos de qualquer agenda ética, implica aceitar proibições e limites. Caso existisse, uma sociedade inteiramente permissiva levaria à supressão da dimensão ética, que se tornaria supérflua num ambiente onde tudo fosse tolerado.
Se aceitarmos a associação entre a atitude ética e o estabelecimento de alguma espécie de limite, que aproximações podemos fazer entre a Ética e a Ciência, entre os procedimentos éticos e a busca do Conhecimento?
Sociedades tradicionais, ordenadas de um ponto de vista religioso, sempre se pautaram pelo reconhecimento de limites intransponíveis, derivados da afirmação da finitude humana. Sociedades dessa espécie não têm dificuldades para admitir a existência de áreas indevassáveis ao Conhecimento.
Outro é o contexto das sociedades a que pertencemos. Os evidentes benefícios derivados da Ciência ao longo da modernidade desembocaram na aceitação, quase sempre irrefletida, mas nem por isso menos eficaz, da doutrina de que a busca da verdade, em curso na Ciência, é a rota que conduz, rápida e seguramente, ao bem. Eventuais indecisões ou ambigüidades apenas têm lugar – é o que se diz ainda hoje – quando está em questão o uso da Ciência.
À medida que desfrute de plena autonomia, talvez o Conhecimento nos conduza a um beco sem saída, ao cultivarmos a curiosidade como o mais alto dos valores, a nossa destruição pode vir a ser o preço a pagar. Entretanto, escolhendo uma impossível contenção, não estaríamos com a salvação garantida, também… E aí? Pensem nisso! Namastê!
