Pinceladas

por Gladis Maia

Karsh, Yousuf  - ALBERT EINSTEIN 4

Gladis Maia

A cada dia a Ciência nos surpreende. Alternativas inéditas, muitas delas sequer sonhadas um dia, são hoje parte do nosso cotidiano. Possibilidades como a preservação duradoura da vida em condições artificiais, a intervenção em fetos e a clonagem evidenciam a expansão do nosso poderio científico-tecnológico. Poderio que nos inscreve, de imediato, no horizonte ético: tudo que pode ser feito, deve ser feito em nome da Ciência ou do Conhecimento?

Façamos um parêntese para tentarmos definir o que é mesmo a Ética. Segundo Houaiss, é a parte da Filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, dos valores presentes em qualquer realidade social. A ética reúne pois os cânones que devem orientar a ação humana para o máximo de harmonia, de universalidade, de excelência ou perfectibilidade. Implica então na superação de paixões e desejos irrefletidos.

Mas, separando a ciência do seu uso, de suas aplicações, somos cada vez mais ciosos dos limites a serem estabelecidos à intervenção humana na natureza.

Não é à toa que diante desse dilema vem surgindo, tão logo surge uma descoberta, discussões em torno da Ética. O termo vem sendo larga e vastamente empregado na imprensa, freqüenta discursos oficiais de matizes distintos, é corrente no meio empresarial e, o que não deixa de ser surpreendente, começa a invadir a linguagem do dia-a-dia. Caracterizar alguém ou algum comportamento como não-ético é uma forma imediata e irrecorrível de condenação.

Mas esse acordo rápido e fácil a respeito de um tema sabidamente controverso não deve nos enganar… A ciência, traço marcante que das sociedades modernas, vem sendo analisada sob os mais diversos ângulos, desde o enfoque mais clássico da epistemologia ao olhar mais recente dos estudos culturais, multiplicam-se os estudos sobre a atividade científica, e entretanto a perspectiva da ética vem exercendo particular interesse, associada que está ao espetacular desenvolvimento contemporâneo das ciências da vida.

Que a reflexão ética encontre algum abrigo nas instituições ligadas à ciência é louvável. Os comitês de ética, regulamentadores das pesquisas que envolvam humanos, o crescente cuidado no trato dos animais associados à pesquisa científica, a atenção e a sensibilidade com que são vistas as questões relativas à intervenção no meio ambiente são indicadores de que estamos, felizmente, diante de um novo cenário.

Mas se de um lado devemos celebrar o reaparecimento da temática ética, na medida em que se localiza no campo da ação humana, o que parecia um destino inescapável, por outro lado, cabe perguntar sob que condições é razoável esperar uma aproximação permanente entre a Ciência e a Ética.

Ética, entre outras coisas, significa restrição. O recurso a valores, constitutivos de qualquer agenda ética, implica aceitar proibições e limites. Caso existisse, uma sociedade inteiramente permissiva levaria à supressão da dimensão ética, que se tornaria supérflua num ambiente onde tudo fosse tolerado.

Se aceitarmos a associação entre a atitude ética e o estabelecimento de alguma espécie de limite, que aproximações podemos fazer entre a Ética e a Ciência, entre os procedimentos éticos e a busca do Conhecimento?

Sociedades tradicionais, ordenadas de um ponto de vista religioso, sempre se pautaram pelo reconhecimento de limites intransponíveis, derivados da afirmação da finitude humana. Sociedades dessa espécie não têm dificuldades para admitir a existência de áreas indevassáveis ao Conhecimento.

Outro é o contexto das sociedades a que pertencemos. Os evidentes benefícios derivados da Ciência ao longo da modernidade desembocaram na aceitação, quase sempre irrefletida, mas nem por isso menos eficaz, da doutrina de que a busca da verdade, em curso na Ciência, é a rota que conduz, rápida e seguramente, ao bem. Eventuais indecisões ou ambigüidades apenas têm lugar – é o que se diz ainda hoje – quando está em questão o uso da Ciência.

À medida que desfrute de plena autonomia, talvez o Conhecimento nos conduza a um beco sem saída, ao cultivarmos a curiosidade como o mais alto dos valores, a nossa destruição pode vir a ser o preço a pagar. Entretanto, escolhendo uma impossível contenção, não estaríamos com a salvação garantida, também… E aí? Pensem nisso! Namastê!

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violencia
Gladis Maia

Até porque ela passou a fazer parte do nosso cotidiano, tem-se falado muito sobre a violência que tem assolado o Brasil. Mas a verdade precisa ser dita: ao longo da história de país nascido escravocrata, o que se tem observado é que mesmo com a implantação do regime republicano esse quadro pouco se modificou.

No campo político temos convivido com várias alternâncias de regimes autoritários, ditatoriais. O modelo econômico capitalista extremamente excludente, concentrando a renda na mão de poucos, constitui-se num dos principais fatores da prática da desigualdade e da violência.

As relações profundamente desiguais, geram privilégios para alguns e ausência de direitos para muitos. E por que não dizer que a Escola também reflete o modelo violento de convivência social?

Nas sociedades capitalistas, que valorizam essencialmente o consumo, as coisas materiais, a aparência, têm-se destacado, em detrimento da essência da pessoa humana, num total desvirtuamento do significado de ser gente, ser sujeito, ser pessoa.

Valores como solidariedade, humildade, companheirismo, respeito, tolerância, são pouco estimulados nas práticas de convivência social, na família, na escola, no trabalho ou nos locais de lazer!

A inexistência dessas práticas cedem lugar ao individualismo, à lei do mais forte, à necessidade de se levar vantagem em tudo, e daí para a brutalidade e a intolerância estamos a um passo.

Diante deste quadro, seria mais coerente falarmos de violências no plural, qualificando-as, no mínimo como: violência urbana, violência policial, violência familiar, violência escolar, etc.

Em relação à violência escolar não dá para esconder que quando um professor fala e manifesta atitudes tais quais: “este aluno está ferrado comigo” ; “este aluno não quer nada com a escola e por mim está reprovado” , ela é palco de e está gerando mais e mais violência.

E o mais triste é que os professores não vêem esta forma de relacionamento com os alunos, que passou a fazer parte do cotidiano escolar, como desrespeito ou agressão. Muitos professores acham que a violência na escola aparece, basicamente, na relação entre os alunos. É como se o professor pudesse ficar isento de tal prática.

Na verdade, todos nós somos produtos do conjunto das relações sociais de uma determinada sociedade da qual fazemos parte. Daí a importância de termos conhecimento de como essas relações são produzidas para podermos pensar alternativas de superação.

E qual seria o papel da educação e da escola nesse contexto? Se entendemos que a educação é um processo de construção coletiva de formação do indivíduo – contínua e permanente – e que se dá na relação entre as pessoas e entre estas e a natureza, a escola pode ser definida como o local privilegiado para essa ação, porque trabalha com o conhecimento, com valores, com atitudes e com a formação de hábitos.

Entretanto, dependendo da concepção e da direção que a escola venha a assumir, esta poderá tornar-se mais um local de violação e de respeito à busca da materialização dos direitos de todos os cidadãos, ou seja, de construção da cidadania.

É importante que a escola seja um espaço onde se formam as crianças e os jovens para serem construtores ativos da sociedade na qual vivem e exercem sua cidadania.
Um projeto de escola que busque a formação da cidadania, precisa ter basicamente como objetivos:
Tratar todos os indivíduos com dignidade, com respeito à divergência, valorizando o que cada um tem de bom. Tornar a escola mais atualizada para que os alunos gostem dela.Trabalhar a problemática da violência e dos direitos humanos, a partir do processo de conscientização permanente, relacionando esses conteúdos ao currículo escolar. E incentivar comportamentos de troca, de solidariedade e de diálogo.

Esta proposta educativa deve ter como eixo central a vida cotidiana, vivenciando uma pedagogia da indignação e não da resignação, como pregava nosso pequeno grande educador Paulo Freire, e continuar sua luta, tornando-a nosso sonho, nossa missão, nossa utopia a ser perseguida, hoje e sempre, incessantemente!

Quem pratica a violência, além de burro é covarde, porque somos seres humanos e a única coisa que nos diferencia dos animais é a capacidade de pensar e de falar. Se nós temos a capacidade de usar palavras, para que usar a força bruta? Pensem nisso! Namastê!

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